Ouro Preto, 26 de Abril de 2017
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Ouro Preto, fruta e segredo

                                                        * Por Laura de Mello e Souza

 

A primeira vez que ouvi referência a Ouro Preto foi quando muito pequena, os mais velhos em casa dizendo que era uma cidade inesquecível e única, fruto muito especial do barroco em terras do Brasil. Mais tarde, soube de Vila Rica : tinha sido esse o nome antigo da cidade, foi lá que os inconfidentes conspiraram e acabaram presos e degredados, menos um deles, Tiradentes,
executado no Rio e depois feito herói da República. Na universidade, apaixonei-me pelas Minas do Ouro, dando com Vila Rica em páginas escritas por Sérgio Buarque de Holanda para a História Geral da Civilização Brasileira e por Kenneth Maxwell no belo livro que é A devassa da devassa. Nunca pisara nessa região, dela só conhecia as bordas do sul, berço de parte de minha família.
Em 1977, recém-formada, cheguei de ônibus Cometa pela primeira vez a
Ouro Preto, atrás de documentos para escrever sobre a gente pobre que lá
vivera nos tempos de Vila Rica. A emoção foi indescritível : a vista do alto, a
cidade esparramada ondulando entre os vales e as montanhas então ainda
despidas, o Itacolomi cintilando lá em cima, tudo tão ou mais bonito do que
imaginara, uma das cidades mais lindas que jamais vira ou veria.
Cada vez que volto revisito a emoção da primeira vez: Ouro Preto num julho
frigidíssimo, o termômetro a quase zero; Ouro Preto com amigos estrangeiros
para vê-los extasiados; Ouro Preto a trabalho – um curso, uma palestra, um
lançamento ; Ouro Preto a passeio, subindo e descendo ladeira, descobrindo
sempre alguma coisa, os Guias de Manuel Bandeira e de Lúcia Machado de
Almeida a tiracolo.
Ouro Preto fruta paulista para uns, baiana para outros, inegavelmente portuguesa,
africana, indígena, miscigenada e única. Expressão do melhor que há
no Brasil, do melhor que houve no império português, dentro e fundo como a
palavra Minas: « galeria vertical varando o ferro/para chegar ninguém sabe
onde », carregando, escreveu Carlos Drummond de Andrade, o « irrevelável
segredo ».
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* É professora de História Moderna na USP desde 1983 e é considerada uma das principais
historiadoras do Brasil.Atualmente, também faz parte do conselho editorial da Revista de
História da Biblioteca Nacional.

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